22 Abril, 2014

.




As minhas mãos  agarram
{quase mortas}
o gemido da noite que cobre ainda as árvores.

A cada fruto que arrancam sem ruído
é como uma promessa de noite escura.

Por mais que as folhas lhe gritem as suas preces
o sol não toca este pedaço de chão.

Alguém acendeu uma fogueira no caminho
para enganar o sangue e a sede dos sonhos.

Sentada 
junto ao sítio onde 
{ferozmente}
lhe empurram para longe o destino
uma menina
pergunta ao primeiro pássaro que acorda
quando foi que morreram as fadas.


Sónia M


(Imagem retirada da net, sem autor mencionado)

18 Abril, 2014

.

"Los seres humanos no nacen para siempre el día en que sus madres los alumbran, sino que la vida los obliga a parirse a sí mismos una y otra vez"

Gabriel García Marquez




07 Abril, 2014

.



Não fales. Abraça-me apenas.
Como naquela madrugada, em que a lua me brilhou nos olhos
e os teus dedos tremendo de espanto, mergulharam nas águas do meu corpo.

Somos a matéria de um sonho imaculável , que uma pedra sonhou, 
há mais de mil anos. Não fales. Deixa apenas que me deite, 
na vertigem da luz dos teus braços: a nossa casa.

Há  um rumor do vento, com palavras que explodem contra os muros.
E há este silêncio dos braços, que prefiro. Quando a tua boca respira na 
minha, a inabalável certeza, que tu em mim não acabas. Por isso não fales.
Seja o que for, abraça-me apenas.

Sónia M

Pintura, Tomasz Alen Kopera

04 Abril, 2014

A borboleta dos que estão longe


Porque ri,
do que ri,
aquele que tanto sorrisos me pede?

Se as vozes que ouço me chegam doridas,
nunca o meu riso o é por inteiro.
Se de repente me vês ausente,
é pela saudade que dos olhos me nasce.
E que neste chão baço, por onde passo,
deixo caída.
Uma borboleta, que no chão chora a sua sorte,
por das flores andar perdida.

Para que queres que ria eu primeiro?
Se é tristeza o que o meu riso augura.
Tal como tu, também eu carrego 
a morte e a vida,
a alegria e a ternura.

Mas em mim, os dias adormecem,
com a ausência do azul que me enleva.
A minha pátria é este punhado de terra triste,
que trago comigo no bolso,
e para todo o lado carrego,
onde as mães se afogam, 
no pranto que lhes vive nos braços,
que já doem de tanta espera...

Sónia M


Ontem regressava com os miúdos a casa e encontrei esta borboleta no chão. Quase a pisámos.
Cheguei a casa e escrevi isto. A borboleta pareceu-me uma lágrima de saudade, colorida.
Uma dor que chega ao chão...ou por ele nasce.
Excelente fim de semana a todos.
Abraço.

27 Março, 2014

.



O dia é esta borboleta triste a rondar a janela.
Uma flor sangra silêncio para cima da mesa da sala

e espera que os candeeiros da rua tenham pressa
em cegar os olhos da casa.

O relógio de parede derrama as horas que marca
num  chão de vento

à entrada de uma porta fechada 
onde o sentido das coisas não entra

que apenas se abre quando por ela passas.

Tenho uma ave presa na boca 
que passa o dia a ajeitar as penas
para voltar a voar 
na claridade que trazes à noite.

Sónia M

(Imagem retirada da net)

26 Março, 2014

Será que as paredes também choram?

Eram quase oito da noite e as temperaturas ainda rondavam os 40°C. 
O céu tinha o azul da manhã e o sol queimava na pele como se fosse meio dia. Mas o Alentejo é assim no verão, talvez seja isso que faz a vida ali parecer mais lenta. Cerca de um quilómetro antes de entrar nas muralhas da cidade, decidimos à ultima da hora visitar um local, que apesar daquela ser a "nossa" cidade, jamais havíamos pisado. Subimos por uma estrada estreita, ao chegar ao fim da estrada a vista que tínhamos era fantástica. Dava a sensação que dali se podia ver o mundo inteiro. Não trazíamos connosco nenhuma máquina fotográfica, mas a necessidade de gravar o que víamos em mais algum lugar, que não fosse apenas a memória, fez-nos usar os telemóveis. Apesar da qualidade das imagens não ser a melhor, hoje quero partilhá-las convosco. 

Podíamos ver nitidamente alguns bairros periféricos à cidade, o castelo, e, no centro desta primeira foto, aquele que é considerado o maior aqueduto da península Ibérica, o Aqueduto da Amoreira. Tem 8,5 quilómetros de extensão, 843 arcos com mais de 5 arcadas e torres que se elevam a 31 metros de altura. Foi construído com o intuito de trazer a água desde os arrabaldes, no local da Amoreira, até ao centro da cidade. Uma vez que o poço que abastecia a cidade, desde a época da ocupação árabe, se tornou insuficiente, devido ao aumento da população. Foi em 1537 que João III de Portugal, designou o arquitecto Francisco de Arruda para executar o projecto, mas só em 1620, correram pelo aqueduto, as primeiras águas dentro dos muros da cidade. O Aqueduto da Amoreira, está classificado como Monumento Nacional desde 1910. E  integra o sítio denominado Cidade Fronteiriça e de Guarnição de Elvas e as suas Fortificações, classificado pela UNESCO como Património Mundial desde 2012.


Pisamos agora, um dos pontos mais altos da região, sendo portanto, um local de grande importância estratégica. Estamos às portas do Forte de Nossa Senhora da Graça (Alentejo, Elvas, Portugal).


Como se pode ver, as portas estão abertas. E qualquer um se pode passear, por este local carregado de História. Foi daqui que o exército espanhol atacou severamente a cidade durante o cerco de Elvas (1658-1659), na Guerra da Restauração, quando na altura o único que aqui havia era uma capela em homenagem à Nossa Senhora da Graça. Situação que se repete em 1762, durante a Guerra dos Sete Anos, quando Elvas foi novamente sitiada. É então que D. José I, determina que seja aqui construída uma fortaleza que permita completar o circuito defensivo da cidade, encarregando o Marechal Wilhelm von Schaumburg-Lippe (nome pelo qual ficou durante muito tempo conhecido - Forte de Lippe)  do seu planeamento e da defesa do reino. Terão trabalhado na construção deste forte, entre 1763 e 1792 (ano em que ficou concluído),  3 a 4 mil homens.  O forte resistiu ao ataque das tropas espanholas durante a Guerra das Laranjas (1801) e ao bombardeamento infligido pelas tropas francesas do general Soult, Guerra Peninsular (1811). No passado foi usado pelo exército português como prisão militar. Recentemente conheci um senhor,  aqui nas ruas de Antuérpia, que nele cumpriu a sua pena, partilhando comigo algumas memórias mais caricatas que tem do local. O mundo é pequeno...

O Forte de Nossa Senhora da Graça integra o sítio denominado Cidade Fronteiriça e de Guarnição de Elvas e as suas Fortificações, classificado pela UNESCO como Património Mundial desde 2012.
                                                     





O interior é um labirinto, uma verdadeira obra prima da arquitectura militar europeia do século XVIII, infelizmente as imagens mostram bem as condições em que se encontra, muito próximo da ruína...

E eu, que já sei do abandono às pessoas e lhe conheço as lágrimas, no fim da visita não deixava de me perguntar - Será que as paredes também choram?














"Não há conquistas ou ambições a satisfazer, mas há o grande dever de conservar o que nos resta da herança do mar."





"A Pátria é uma herança sagrada que devemos transmitir intacta aos nossos descendentes."









Nota:
À data desta publicação, consegui apurar junto a um funcionário da Câmara Municipal de Elvas, que a Câmara adquiriu os prédios militares da cidade e que neste momento, se encontra a decorrer um concurso, para adjudicação da empreitada para a obra de recuperação.

Mas a vida no Alentejo, tal como acima mencionei, corre, corre e corre, a passo de tartaruga...

Sónia M

21 Março, 2014

Sou árvore...


De mim não te compadeças, se a melancolia me embriaga.
Venho da memória das folhas que visto, antes que o vento as desfaça.

Há sempre aquele perigo, em deixar a carne exposta, aos olhos ávidos 
de chagas, daqueles cuja memória lhes falha.

Somos todos feitos de uma mesma massa, a todos nos toca um dia a
mesma lâmina. Regamos um solo, de árvores dispersas, com o sangue
que de nossas feridas se escapa.

Não quero em mim a tua pena, quando sussurro os suspiros da memória.
Sou muito mais do que as peles que visto.
Sou árvore ... e por mim, passam todas as estações.

Sónia M

Imagem, Ingrid Endel


Porque hoje é o Dia Mundial da Árvore (e da Poesia) apeteceu-me voltar a publicar este poema.
Um abraço a todos os poetas.
Excelente fim de semana.

19 Março, 2014

O primeiro poema.



Ao Pai

Já nasci com sorte.
Mora comigo um "fixola"
que joga comigo à bola.
Fica sabendo que eu adoro-te.

Contigo tudo é divertido.
És sempre tão engraçado.
Que se enganem os outros
porque o melhor pai do mundo
está aqui ao meu lado!

FELIZ DIA DO PAI!


Poema e ilustração de André MC (9 anos)

Foi feito o desenho. Depois, com uns olhos muito brilhantes, pediu uma ajudinha para escrever um poema.
E eu, confesso, que gostei muito...se bem me lembro, eu comecei um pouco mais tarde a brincar às rimas.



AS MULHERES SECAS - Joilson Kariri Rodrigues



AS MULHERES SECAS

As mulheres secas
não se banham, 
só lavam suas caras sujas nas águas dos olhos,
é pra isso que choram, se entristecem e choram.
E quando a noite desanoitece
e o sol vem queimar o mundo,
é hora de rezar as velhas preces
é hora de rezar em vão, de juntar mais mágoas
que é para se entristecer e dar mais águas
nos olhos que são cacimbas de beber.
As mulheres secas bebem lágrimas!
tentando fazer leite nas muchibas magras, ocas
e não vem leite que dê pra tantas bocas,
dos meninos magros, secos
que só sugam nesses peitos, suor e sal.
As mães secas vivem de encantar meninos,
são enganadoras e prometem o céu que não têm
o leite que não vem,a chuva, o mingau.
As mulheres secas, pra enganar, dão até de sorrir
e escondem deles as suas dores, seus cansaços
e chupando seus peitos secos, embalados em seus braços,
mais um menino morre, sem ela nem sentir.

(Texto Joilson Kariri e desenho de José Pádua)
http://joilsonkariri.blogspot.com/

http://joilsonkariri.blogspot.be/2013/12/mulheres-secas-mulheres-secas-se-banham.html


12 Março, 2014

Gestos



O medo é feroz.
Invade as artérias da casa
com uma lâmina afiada
cortando a esperança às postas.

É como a água
a desbravar caminhos
derruba defesas
e passa.

Ameaça em ir-se embora
mas não vai!
Senta-se à nossa mesa
dorme na nossa cama
grita-nos ao ouvido
até obrigar a alma a sair
apropriando-se do corpo.

Ignora o medo
que quando mil dedos se juntam
sofre uma morte imediata.
Mil vezes o matam
mil vezes renasce
mil dedos se juntam
mil vezes o matam.

Há uma ansiedade emergente
do nosso tempo

são tão poucos os dedos
tantas vozes caladas
tanto medo que se alastra
como doença sem cura.

Hoje
uma desconhecida
enquanto reparava uma linha ténue de vida
achou por bem agarrar às mãos cheias
a ansiedade da minha voz
e uni-la a outra para que se ouvissem

de repente
como se de mais não precisasse
a esperança  choveu-me  inteira nos olhos.

Não sei quem ela é
nem se algum dia as nossas linhas
se voltarão a cruzar
mas imaginei-a de corpo inteiro
alma limpa
e ensinou-me
que ainda Somos Alma.

Habitamos um corpo
para que haja gestos.

Sónia M
09/03/2014

À voz do outro lado da linha...
Obrigada. Bem Haja!

07 Março, 2014

.



Chegas sempre envolto em maresia
para que eu não saiba distinguir
as linhas do teu nome.

Deixas na praia um búzio
para que eu ouça o canto das marés
e somes mar adentro.

Há passos delicados na areia
e uma sereia ao longe
a quem perguntei quem eras
apenas me disse - mar.

Chegas sempre quando a cidade me chama
e partes sem que eu te veja.
Nunca sei porque o fazes.

Sou feita de terra.
Diluiria-me nas tuas águas
antes de poder encontrar-te.

Dorme o teu nome na boca dos peixes.



Sónia M

Pintura, "Sonhando com o mar" de  Leila Proênça


05 Março, 2014

.

- Não, nada tem a ver com isso. Nem sei se o que te explico algum dia poderás entender. O que se passa é nada mais que uma questão de gosto. E o que eu gosto mesmo, é das paredes caiadas de branco, bicadas pelo sol. As ruas são como corredores iluminados, toda aquela luz chega a cegar-te. Sempre que as toco, há pássaros que me nascem dos dedos e correm a fazer ninho nas oliveiras. Sabes que ali os olhos não te fazem falta, mas o nariz sim. Imagina que és assaltado no caminho por uma vizinha da vizinha, que é amiga da vizinha da tua mãe. Agarra-se a ti como se não houvesse amanhã e diz-te - Ah gaiata, estás cá? Entra, entra, acabei de fazer uma açorda e o Ti Joquim está a pôr a mesa no quintal. - Mesmo de olhos fechados tu vais, porque o nariz te diz que deves ir. Não fazes ideia da festa que se consegue fazer com meio quilo de pão duro. Não é preciso muito nem pouco, aquele tudo é quanto basta. É como te digo, é uma questão de gosto. E a felicidade tem gostos simples.

Sónia M

(Imagem retirada da net)

04 Março, 2014

Feitos de vento...





Ainda me estremeces no peito,
como arrepio de um sopro de vento,
o teu nome inscrito na mudez de um grito
que se faz ouvir na noite.

A nitidez da memória de uma tarde quente.
Uma espera demorada, por um punhado de horas, 
que respirámos lentamente.

A placidez dos gestos,
a esconder o desassossego do ventre.
O corpo, tão perto. O encontro sereno da fala.

Os olhos que bebiam um horizonte distante.
O retrato, que me tiraste à janela,
já tão antigo, como este silêncio de agora, 
que de nós não parte.

Ainda me penteia a melancolia,  
quando lembro o murmúrio das árvores lá fora,
a plenitude de um intervalo tardio da vida.

Ficámos feitos de vento, amor. 
A dor de um destino que chamei rebelde.
Uma espécie de angustia em mim cravada,
por haver chegado sempre tarde.

Sónia M
(Resta sempre a doçura de uma memória)



Imagem, © Matt Wisniewski


26 Fevereiro, 2014

Venho de um lugar...



Venho de um lugar onde o simples se cultiva,
com mãos calejadas.

A voz, a alma, o trabalho, a garrafa de vinho.
Os olhares de orgulho, o fado, o carinho.

Levantam-se os três que a ele pertencem,
incham o peito, erguem o copo,

- pelo sangue que nas veias lhes corre,
- pela pessoa que assim os fez,
- pela união, pelo pai, que une o céu que os cobre,
- pela vida, pelo homem, este homem fantástico!

Parabéns Pai!

Sónia M
(Um lugar que não trocaria por nenhum outro do mundo, mas...)