21 abril, 2017

Foto do dia.

A raiz é livre como um pássaro!
O sonho mostra o caminho.
Chega Abril. A liberdade é já ali.

Até amanhã ❤

17 abril, 2017





Foto do dia.

Paciente, uma ave nocturna
pousa no vestido da tarde...
Esperará  que o dia se dispa
aos seus olhos arregalados de lua?


Sónia M

17 março, 2017

...






Dar-te-ia uma noite clara 
Isenta de gritos e no 
Zelo das margens do rio 

Que te banha a alma, beijaria 
Um a um os teus medos. Por 
Entre a sede das mãos, escorreria 

A verdade que entregámos aos pássaros.
Instante de luz a ofuscar os dias. 
Nesga de loucura a guardar os sonhos. 
Deitaria às águas um verso branco.
Astro fecundo nos meus verdes olhos. 

Mistério encostado ao céu da boca do 
Encanto, com que envolves 

As minhas mãos vazias. 
Morresse a lonjura no abraço do verso.
Antes não fosses um destino 
Sem tempo. Pátria perdida...à qual nunca regresso. 

Sónia M 

Imagem, © Łukasz Gliszczyński

02 novembro, 2016

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De tanto olhar pelo olho de vidro da dor
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.

O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.

Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.

Amarro o teu nome à palavra instante

antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome 
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.

O relógio marca a ilusão 
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo

até amanhã...

Sónia M


27 setembro, 2016

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Acende para mim uma luz, que o caminho é escuro
e nenhum verso te encontra.
- A luz mais lavada, que nos olhos me abra
uma certeza maior, que a da solidão da folha.


A mim, que nunca um deus me falou
basta-me saber da aranha para acreditar na teia, 
ouvir o trovão para saber da chuva.
E em tudo isto acredito. 

Ensina-me, se souberes, a rezar a todos os deuses.
Que eu só sei falar ao vento, das estações que depressa passam. 
De joelhos, como quem reza ou suplica,  deixarei uma prece
 aos pés da pedra. Farei de tudo, bem vês, que os meus frágeis ossos, 
não suportam mais o peso, da ilusão que escorre pelas paredes da casa.


- Acende para mim uma luz,  que  já nenhum verso a encontra. 
A luz mais lavada, a mais pura.
Acende...e que seja verde, como a luz 
que faz mover os corações de pedra.


Texto e imagem , 
Sónia M





15 julho, 2016

Não olhes agora.





Foi aí que chorei. E se o mundo ficar sem pássaros?


Sónia M

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Este céu…
Este céu de agora…
Este céu tem penas
que choro...

Aos milhares caem aos pés
dos que já não caminham.
Dói tanto ver o voo das aves perdidas de dor.
Faças o que fizeres
onde quer que tu vás
não olhes este céu de agora.

Pássaros desfazem-se em penas
e antes que percebas já te entraram pelos olhos.
Não queria que visses, meu bem.
Não olhes agora!
Dói  ver o voo de tantas aves órfãs…

Sónia M


Imagem, Pinterest



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Estou cheia de ausências
de saliva
de abraços de papel.

Dou por mim a querer coisas como
o rasto breve de uma estrela cadente
segurar  o brilho das águas do rio que amas
sem  molhar  a ponta dos dedos.
O que hoje sei é das coisas mais estúpidas.


Nenhuma metáfora te aclarará a noite
nem te  calará o grito.
Nada que conheço me fará beijar-te os medos.
Não há manhã que nos espere
para nos guardar a ternura.

Na verdade – e é a verdade o que mais assusta-
nunca serei mais que a tua  aprendiz de poeta.
Escrevo água e nascente
enquanto a boca bebe da fonte mais seca
e por ti  vai morrendo  de sede.


Sónia M 

Ilustração, Sean Yoro



30 junho, 2016

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Cai-te a noite da algibeira.

Estrelas costuram memórias
à franja prateada da lua.

Chamas ainda por nomes
que o tempo
num último instante devora…

Ficas tu e um poema.

Uma boca que derrama um beijo
sobre o rio das horas sós…

Sónia M


Imagem, ©Jennifer B Hudson

22 março, 2016

22 de Março



Ergo a tristeza como a pior das bandeiras.
Arrasto-a pelo meio do caos 
desta Primavera com cheiro a medo.

É sangue o que corre nas mãos 
do homem que semeia vazios
no coração das flores...

Ando cansada do tempo.
Do tempo que passa 
sem nada que diga vida.

Uma e outra vez grito para dentro 
a mesma pergunta
e nos vagos intervalos desta chuva vermelha,
oiço como a resposta sangra nas ruas.

Afinal do que tens medo? - Grito.
Deste vazio... - Sangra.

Quanto Amor trazes nas mãos?
Não digas que o Amor nada salva!
Se juntares o meu ao teu
derrubamos o medo
e salvamos as flores.


Sónia M

Imagem, ©Plantu

10 janeiro, 2016

No dia em que emudeceste a cidade

No dia em que emudeceste a cidade
um sonho atormentou-me a noite

havia uma margem
onde uma frondosa árvore
em desespero
tentava abraçar o vento

e o vento passava e ria 
intocável

um pássaro trazia a manhã à janela de um rio 
onde tu banhavas o verbo
- ventre do poema
mais secreto e indomável 

e a vida, meu bem
esse fogo
tão bendito quanto maldito
ia secando todas as águas...

trouxeste o tempo para dar de beber aos peixes
- esse quase nada onde quase tudo assenta - 
e um muro de espelhos ergueu-se!

ao olhar o meu reflexo no muro
arranquei os olhos
para não voltar a ver-me

eu era o germe do silêncio
que chorava versos mudos
condenado a roer a memória mais funda
até que o verbo... já não doa.

Sónia M